segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Confúcio e o Mortal - Chuang Tse



Confúcio contemplava a catarata Lu-Liang. 
A cortina de água tem a altura de dez homens em pé, um em cima do outro.
Depois da queda, a corrente impetuosa de águas espumantes se precipita ao longo de quarenta milhas, entre as rochas. 
Nem tartarugas, peixes ou crocodilos podiam nadar nesse turbilhão.
Viu, porém um homem nadando na torrente.
Crendo tratar-se de um suicida cansado dos sofrimentos da vida, mandou que seus discípulos o salvassem da morte.
A uns cem passos abaixo, porém, o homem saiu da água, sacudiu alegre os cabelos molhados e cantarolava.
Disse Confúcio:
Pensei que você fosse um espírito. 
Vejo, porém, que é mortal.
Diga-me, por favor, em que consistem a técnica e o método de sua natação?
Respondeu-lhe o mortal:

"Não sei. Instalei-me na terra,
enraizei-me no hábito do cotidiano; 
no desempenho recolhido do habitat diário,
 alojei-me na fluência da vida; 
aos poucos a fluência da vida se tornou o habitáculo da minha natureza
como a lei perfeita da regência do corpo. 
Caio na água, desço e subo com ela, na correspondência à sua doação. 
Não há técnica nem método."

Perguntou-lhe Confúcio:
O que significa instalar-se no hábito do cotidiano,
 alojar-se na fluência da vida,
tomar corpo na regência da lei perfeita?

Respondeu-lhe o homem:

"Sou camponês.
Nasci na terra.
Moro nela.
Isso se chama paz e recolhimento diário.
Da paz flui a vida.
Deixar fluir a vida no recolhimento diário é o hábito.
Isso se chama: ser.
Com o tempo, o ser toma corpo,
cresce como fruto da vida, prenhe de vigor.
Isso se chama: liberdade ou espírito.
É só isso, nada mais."

Chuang Tse

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Alma enamorada - São joão da Cruz



Alma Enamorada

A alma que está enamorada de Deus
não pretende vantagem ou prêmio algum
a não ser perder tudo e a si mesma
voluntariamente, 
por Deus,
e nisto encontra todo o seu lucro.
O morrer é lucro.
Quando uma alma no caminho espiritual
chegou a ponto de perder-se
de todas as vias e modos naturais
de proceder em suas relações com Deus,
e não mais O busca por meio de considerações,
ou formas, 
ou sentimentos,
ou quaisquer outros intermediários de criaturas ou sentidos,
mas ultrapassou tudo isto,
bem como toda a sua maneira pessoal,
tratando com Deus
e Dele gozando puramente em fé e amor,
então podemos dizer que, 
na verdade,
esta alma ganhou a seu Deus;
porque está verdadeiramente perdida a tudo quanto não é Ele,
e a tudo quanto ela é em si mesma.

São João da Cruz

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Filosofia Vedanta - Swami Vivekananda

“A FILOSOFIA VEDANTA”
Swami Vivekananda


(Conferência ante a Sociedade Filosófica de Graduados da Universidade de Harvard, em 25 de março de 1896)

             A filosofia vedanta, como atualmente se costuma chamá-la, compreende, na realidade, todas as diversas seitas existentes hoje em dia na Índia. Assim, pois, tem havido varias interpretações, às quais, no meu modo de ver, têm sido progressivas, começando pela dvaita ou dualista e terminando pela advaita ou monista. A palavra “vedanta” significa, literalmente, a finalidade dos Vedas, que são as escrituras dos hindus 1. No Ocidente, às vezes, por Vedas se quer dar a entender unicamente os hinos e os rituais, mas na atualidade estas partes já não se usam e correntemente na Índia, ao dizer Vedas, se subtende a vedanta. Todos nossos comentadores quando querem citar alguma passagem das escrituras, em geral, citam a vedanta, a qual tem para eles outro nome técnico: “srutis” 2. Agora, todos os livros conhecidos sob o nome de vedanta, não foram escritos inteiramente depois das partes ritualistas dos Vedas. Por exemplo, um deles, o Isha Upanishad, constitui o capitulo quadragésimo do Vada Yajur, uma das partes mais antigas dos Vedas. Outros Upanishads 3, formam as partes dos brahmanas ou escritos rituaistas e os demais são independentes, pois não estão compreendidos em nenhum dos brahmanas nem em outras partes dos Vedas; mas não há razão para supor que foram completamente independentes de outras partes, porque como bem sabemos, muitas destas se perderam totalmente e muitos dos brahmanas desapareceram. Portanto, é bem possível que os Upanishads independentes pertenceram a algum dos brahmanas que, no transcorrer do tempo, ficaram fora de uso, enquanto que se conservaram os Upanishads. Estes se chamam, também, livros da selva ou aranyakas.

1. Os Vedas se dividem em duas partes, a saber: karma-kanda e jnana-kanda; ou seja, a parte prática e a de conhecimento. Pertenceu a karma-kanda os famosos hinos e os rituais ou brahmanas. Os livros que tratam de questões espirituais, excluindo as cerimônias, se chamam Upanisjads e pertencem a jnana-kanda, aparte do conhecimento. Não é que todos os Upanishads foram compostos como parte separada dos Vedas, senão que alguns estão misturados com os rituais e ao menos um está no “samhita” ou parte dos hinos. Às vezes se aplica o termo Upanishads a livros não incluídos entre os Vedas; por exemplo, o Gita; mas em regra geral, se aplica aos tratados filosóficos disseminados entre os Vedas. Estes tratados têm sido colecionados e é chamado vedanta.
2. O termo sruti significa “o que se vê” e embora inclua a totalidade da literatura védica, é aplicado pelos comentadores principalmente aos Upanishads.
3. Se diz que os Upanishads são cento e oito. Não se conhecem, com certeza, suas datas; a única certeza é que são mais antigos que o movimento budista. Embora alguns Upanishads menores contenham alusões que indicam sua data posterior, ele não prova que o tratado seja de data mais recente, pois em muitíssimos casos ocorre, na literatura sânscrita, que a substância de um livro, embora de data muito antiga, receba um revestimento, por assim dizer, de sucessos posteriores, em mãos de sectários, para exaltar a sua seita particular.

             Por conseguinte, a vedanta constitui praticamente as escrituras dos hindus e todos os sistemas ortodoxos de filosofia hão de aceita-la como fundamento. Até os budistas e os jainos, quando convém a seu propósito, citam como autoridades passagens da vedanta. Na Índia, todas as escolas de filosofia, embora pretendam estar fundadas nos Vedas, têm dado diferentes nomes a seus sistemas. A última, o sistema de Vyasa, se baseou nas doutrinas dos Vedas mais que nos sistemas anteriores e intentou harmonizar as filosofias precedentes, tais como a sankhya e a nyaya,com as doutrinas da vedanta. De maneira que chamam-na especialmente filosofia vedanta; e os sutras ou aforismos de Vyasa, representam, na Índia moderna, a base da filosofia vedanta.
             Por outro lado, os aforismos de Vyasa têm sido diversamente explicados por diferentes comentadores. Em geral, há na Índia três tipos de comentadores 4, e de suas interpretações têm surgido três sistemas de filosofia e três seitas, uma é dualista ou dvaita; a segunda é a parcialmente monista ou vishishtadvaita, e a terceira, a monista, ou advaita. Destas, a dualista e a parcialmente monista, são as preferidas. Em troca, a monista absoluta tem relativamente poucos adeptos.




4. Os comentários pertencem a várias classes, tais como o Bhashya, o Tika, o Tippani, o Churni, etc.; dos quais todos, exceto o Bhashya, são explicações do texto ou de palavras difíceis nele mesmo. O Bhashya não constitui propriamente um comentário, senão a elucidação de um sistema de filosofia extraído dos textos, cujo objetivo não consiste em explicar as palavras, senão de extrair uma filosofia. Assim, o escritor de um Bhashya expande seu próprio sistema, tomando os textos como autoridade para ele mesmo.

             Muitos comentários foram feitos sobre a vedanta e suas doutrinas acham sua expressão final nos aforismos filosóficos de Vyasa. Este tratado, chamado “Uttara Mimansa”, constitui a autoridade normal do vedantismo, mais até, a exposição mais autorizada das escrituras hindus. As seitas mais antagônicas se viram obrigadas, por assim dizer, a tomar os textos de Vyasa e harmoniza-los com sua própria filosofia. Até em tempos muito antigos, os comentadores da filosofia vedanta, constituíram três celebradas seitas hindus de “dualistas”, “parcialmente monistas” e “monistas”. Talvez os antigos comentários se perderam, mas em tempos modernos, têm sido restabelecidas por comentadores pós-budistas como Shankara, Ramanuja e Madhava. Shankara restabeleceu a forma monista; Ramanuja, a forma parcialmente monista do antigo comentador Bodhayana, e Madhava a forma dualista. Na Índia, as seitas diferem principalmente em sua filosofia; a diferença entre os rituais é ligeira, já que têm todas a mesma base filosófica e uma mesma religião.
             Tratarei de explicar-lhes as idéias sustentadas por estas três seitas, porém, antes de prosseguir, quero fazer presente que estes diferentes sistemas da vedanta têm uma psicologia comum, a psicologia do sistema sankhya, muito parecida à dos sistemas nyasa e vaisheshika, salvo pequenos detalhes.
             Todo os vedantistas coincidem em três pontos: crêem em Deus, nos Vedas como revelados e nos ciclos. Já consideramos os Vedas. O conceito dos ciclos é o seguinte: A matéria do universo inteiro é resultado de uma matéria principal chamada akasha e toda força, seja de gravitação, de atração ou de repulsão ou de vida, é o resultado de uma força principal chamada prana. Prana atuando sobre akasha, cria ou projeta o universo 5. No princípio de um ciclo, akasha está imóvel, imanisfestado. Logo prana começa a atuar, criando de akasha formas mais e mais densas, tais como as plantas, animais, homens, estrelas, etc. Depois de um incalculável período de tempo, cessa esta evolução e se inicia a involução, tornando tudo, através de formas cada vez mais finas e sutis, ao akasha e prana originais, ao que segue um novo ciclo. No entanto existe algo mais que akasha e prana; pois ambos podem resolver-se em um terceiro chamado “mahat”, ou mente cósmica. Esta não cria a akasha nem a prana, senão que se transforma neles.

5. A palavra “criação”, em espanhol, significa exatamente, em sânscrito, “projeção”, pois não há seita alguma na Índia que dê à criação, o mesmo sentido que no Ocidente, ou seja, algo que procede do nada. O que entendemos por criação, é a projeção de algo que já existia.

             Trataremos agora dos conceitos de mente, alma e Deus. Segundo a psicologia sankhya, universalmente aceita, em percepção (por exemplo, no caso da visão), existem ante todos os instrumentos da visão, ou seja, os olhos. Por detrás dos instrumentos, os olhos, está o órgão da visão ou “indriya” (o nervo ótico e seus centros), que não é um instrumento externo, mas sem o qual os olhos não vêem. Para a percepção se necessita de algo mais. A mente ou “manas”, precisa agregar-se ao órgão; além disto, a sensação leva ao intelecto ou “buddhi”, o estado determinativo e reativo da mente. Ao proceder a reação de buddhi, brilha com ela o mundo externo e o egoísmo. Aqui está, então, à vontade; mas ainda falta algo. Da mesma maneira que em um quadro, por estar composto de sucessivos motivos de luz, estes hão de estar unidos em algo fixo para formar um todo, assim também todas as idéias da mente se hão de reunir e projetar-se sobre algo fixo, relativamente ao corpo e a mente, ou seja, no que se chama alma, purusha ou Atman.
             Segundo a filosofia sankhya, o estado reativo da mente, chamado buddhi ou intelecto, é o resultado, a mudança ou certa manifestação de mahat ou mente cósmica. Mahat modifica em pensamento vibrante; este, por sua vez, se transforma parcialmente em órgãos e parcialmente em partículas finas de matéria. Da combinação de tudo isto, se produz o universo inteiro. A sankhya concebe até depois de mahat, um estado chamado “avyaktam” ou imanifestado, no qual a manifestação da mente não está presente, senão que sé existem as causas. É chamado também de “prakriti”; além deste prakriti e eternamente separado do mesmo, está purusha, a alma de sankhya, a qual carece de atributos e é onipresente. Purusha não é quem atua, é o expectador. Para explicar a pusha, se emprega o exemplo do cristal; diz-se que é como o cristal incolor, por detrás do qual se colocam objetos de diferentes cores; então aparece como colorido, embora, na realidade, não esteja.
             Os vedantistas rechaçam as idéias da sankhya sobre a alma e a natureza. Declaram que existe entre estas um abismo, sobre o qual há uma ponte. Por um lado, o sistema sankhya chega à natureza e logo, prontamente, saltará para o outro lado e chegará à alma, que está inteiramente separada da natureza. Como pode estas diferentes cores, como a sankhya as chama, atuar sobre a alma, a qual, por natureza, é incolor? Por isso os vedantistas afirmam, desde o princípio, que esta alma e esta natureza são uma 6. Até os vedantistas dualistas admitem que Atman ou Deus é não somente a causa eficiente deste universo, mas também a causa material do mesmo. Porém só o dizem em palavras, pois na realidade não o entendem assim e tratam de escapar de suas próprias conclusões dizendo: neste universo há três existências; Deus, alma e natureza. A natureza e a alma são, por assim dizer, o corpo de Deus e neste sentido se pode afirmar que Deus e o universo inteiro são um. Mas esta natureza e todas estas várias almas se mantêm diferentes umas das outras por toda a eternidade. Se manifestam unicamente no princípio do ciclo; ao terminar este, voltam ao estado puro e se mantêm no mesmo. Os advaitistas, monistas, rechaçam esta teoria da alma e como têm como apoio quase toda série dos Upanishads, constroem sobre eles sua filosofia inteira. Todos os livros contidos nos Upanishads têm um só objetivo, uma só tarefa, demonstrar o seguinte tema: “Assim como pelo conhecimento de um torrão de argila conhecemos toda a argila, conhecemos toda a argila do universo, que quer dizer, conhecendo-o, nos permite conhecer todo o universo?”. A idéia do advaitista é generalizar o universo inteiro em uma única coisa; essa coisa que é, na realidade, a totalidade do universo. Afirmam que todo este universo é um só ser que se manifesta por meio de todas estas múltiplas formas. Admitem que existe o que a sankhya chama natureza; mas dizem que a natureza é Deus. Este Ser, “Sat”, é o que se converteu em tudo isto, o universo, o homem, a alma e tudo o que existe. A mente e mahat não são senão manifestação de Sat. Mas aqui surge uma dificuldade: tal conceito equivale ao panteísmo. Como pode ocorrer que Sat, que é imutável, como eles mesmos admitem (pois todo o absoluto é imutável), se transforme em algo mutável ou perecível?

6. A vedanta e a filosofia sankhya se opõe uma a outra. O Deus da vedanta se desenvolveu do purusha e da sankhya. Todos os sistemas tomam a psicologia desta última. Tanto a vedanta como a sankhya crêem na alma infinita, só que a última crê na existência de muitas almas. Segundo a sankhya, este universo não requer explicação alguma do exterior. A vedanta crê que existe a alma única, que aparece como muitas; e nós construímos sobre a análise da sankhya.

             Os advaitistas têm uma teoria que chamam “vivarta vada” ou manifestação aparente. Segundo os dualistas e os sankhyas, a totalidade deste universo é a evolução da natureza primária. Segundo os advaitistas e alguns dualistas, a totalidade deste universo evolui de Deus; e de acordo com os verdadeiros advaitistas, os seguidores de Shankaracharya, o universo inteiro é a evolução aparente de Deus. Deus é a causa material deste universo, não em realidade, mas só de aparência. A célebre ilustração empregada é a corda e a serpente; a corda parece uma serpente, mas, na realidade, não é. A corda não se transformou em serpente. De igual modo, este universo, tal qual existe, é esse Ser. Não muda; todas as mudanças que vemos são só aparentes e causados por “desha”, “kala” e “nimita” (espaço, tempo e causa) ou, de acordo com uma generalização mais elevada, por “nama” e “rupa” (nome e forma). O nome e a forma de uma coisa são o que a diferencia de outra. Nome e forma são a única causa da diferença; na realidade, são uma e a mesma coisa.
             Por outro lado os vedantistas dizem: não é que haja algo como fenômeno e algo como número. A corda se transforma em serpente só aparentemente; uma vez que cessa essa ilusão, a serpente desaparece. Quando alguém é ignorante, vê o fenômeno e não vê a Deus. Enquanto vê a Deus, o universo se desvanece inteiramente. A ignorância ou maia, segundo se a chama, é a causa desse fenômeno em que o Absoluto, o Imutável, confundem-se com o universo manifestado. Maia não é zero absoluto, nem tampouco inexistência. Não é inexistência porque isto só pode se dizer do Absoluto, do Imutável e neste sentido, maia é inexistência. Assim mesmo, tampouco se pode dizer que seja inexistência, porque, se o fosse, não poderia produzir o fenômeno. De maneira que não é uma coisa nem outra; na filosofia vedanta se chama “anirvachaniya”, o inexpressável.
             Maia, portanto, é a causa real deste universo. Maia dá nome e forma a matéria que ministra Brahman ou Deus e aparece logo que este último se transforma em tudo isto. Os advaitistas, portanto, não aceitam a alma individual; dizem que as almas individuais são criadas por maia e que na realidade, não podem existir. Se a existência é uma só, como pode ser que eu seja um, cada um de vós um e assim por diante? Todos somos um e a causa do mal é a percepção da dualidade. Tão logo como começo a me sentir separado deste universo chega, em seguida, o temor e a dor. “De onde um olha o outro, um vê o outro; isso é pequenez. Onde um não vê o outro, não olha o outro, isto é maior, isso é Deus; ali está a felicidade perfeita. Nas coisas pequenas não há felicidade”. 
             De maneira que, de acordo com a filosofia advaita, esta diferenciação da matéria, estes fenômenos, ocultam por um tempo, digamos assim, a verdadeira natureza do homem; mas este, na realidade, não muda o mínimo. O verme mais vil, ou mesmo o ser humano mais elevado estão presentes na mesma natureza divina. A forma do verme é a mais inferior e nela maia encobre mais a divindade; a forma mais elevada é aquela em que a divindade está menos oculta. Por detrás de todas as coisas existe a mesma divindade e isto nos dá a base da moralidade. Não prejudiqueis a outro; ama a todos como a ti mesmo. Disto nasce também o princípio da moralidade advaita, que tem sido compendiado na expressão: própria abnegação. O advaita diz: este pequeno eu personalizado é a causa de toda minha desgraça; este pequeno eu individualizado que me faz diferente dos demais seres, traz ódio, ciúmes e desgraças, lutas e todos os demais males; quando abandonarmos tal idéia, toda luta cessará e se desvanecerá todo mal-estar. Portanto, devemos abandona-la; temos de estar dispostos a dar nossas vidas pelos seres mais inferiores.
             Quando o homem está disposto a dar sua vida até por um mísero inseto, alcançou a perfeição a qual aspira o advaita; nesse instante o véu da ignorância cai e sente sua própria natureza. Até nesta vida sentirá que é uno com o universo. Por um tempo, por assim dizer, a totalidade deste mundo fenomenal desaparecerá para ele e realizará o que ele é. Não obstante, enquanto se mantiver o carma desse corpo, terá que viver. Nesse estado em que o véu se desvaneceu e, contudo, se conserva o corpo por algum tempo, é o que os vedantistas chamam “jivanmukti”, a liberdade em vida. Quem se deixa enganar durante algum tempo por uma miragem, se um dia esta se desvanecer, quando se produzir novamente no dia seguinte ou no futuro, já não se iludirá mais.
             Antes que a miragem se produza pela primeira vez, o homem não poderá distinguir entre a realidade e a decepção; mas uma vez desvanecida, enquanto possuir órgãos e olhos verá a imagem, mas já não será iludido. Terá captado a sutil distinção entre o mundo atual e a miragem. Assim, enquanto o vedantista compreende sua própria natureza, o mundo inteiro se desvanece para ele; voltará de novo, mas há não será o mesmo mundo de sofrimento. A prisão dolorosa terá se transformado em Sat, Chit, Ananda; ou seja, Existência absoluta, Conhecimento absoluto, Bem-aventurança Absoluta. Consegui-lo é o que procura a filosofia advaita.


obtido em:


Pensamentos soltos - Swami Vivekananda

A pureza e a caridade não são possessões exclusivas de nenhuma igreja do mundo e cada sistema produz homens e mulheres de ordem mais elevada. Na presença deste fato evidente, se alguém sonha com a exclusiva sobrevivência de sua própria religião e da destruição das outras, compadeço-me dele, do fundo do meu coração e o faço notar que na bandeira de cada religião logo se escreverá: “Ajuda, e não luta”, “Assimilação, e não destruição”, “Harmonia e paz, e não distinção”.

Swami Vivekananda

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Oração - Adoro-te, recôndito Eu do universo - Pietro Ubaldi


Adoro-te, recôndito Eu do universo, alma do Todo, 
Meu Pai e Pai de todas as coisas,
minha respiração e respiração de todas as coisas.
Adoro-te, indestrutível essência, 
sempre presente no espaço, no tempo e além, no infinito.
Pai, amo-te, mesmo quando Tua respiração é dor, 
porque Tua dor é amor; mesmo quando Tua Lei é esforço, 
porque o esforço que tua Lei impõe é o caminho das ascensões humanas.

Pai, mergulho em Tua potência, nela repouso e me abandono, 
peço à fonte o alimento que me sustente.
Procuro-te no âmago onde Tu estás, de onde me atrais. 
Sinto-Te no infinito que não atinjo e donde me chamas. 
Não Te vejo e, no entanto, ofuscas-me com Tua luz; 
não Te ouço, mas sinto o tom de Tua Voz; 
não sei onde estás, mas encontro-Te a cada passo, 
esqueço-Te e Te ignoro, no entanto, ouço-Te em toda a minha palpitação. 

Não sei individuar-Te, mas gravito em torno de Ti, 
como gravitam todas as coisas, em busca de Ti, centro do universo.
Potência invisível que diriges os mundos e as vidas, 
Tu estás em Tua essência acima de toda a minha concepção. 
Que serás Tu, que não sei descrever nem definir, 
se apenas o reflexo de Tuas obras me enceguece? 
Que serás Tu, se já me assombra a incomensurável complexidade desta Tua emanação, 
pequena centelha espiritual que me anima integralmente? 

O homem Te busca na Ciência, invoca-Te na dor, 
Te bendiz na alegria. 
Mas na grandiosidade de Tua potência, 
como na bondade de Teu amor, 
estás sempre além, 
além de todo o pensamento humano, 
acima das formas e do devenir, 
um lampejo do infinito.

No ribombar da tempestade está Deus; 
na carícia do humilde está Deus; 
na evolução do turbilhão atômico, 
na arrancada das formas dinâmicas, 
na vitória da vida e do espírito, está Deus. 

Na alegria e na dor, 
na vida e na morte, 
no bem e no mal, está Deus; 
um Deus sem limites, 
que tudo abarca, 
estreita e domina, 
até mesmo as aparências dos contrários, 
que guia para seus fins supremos.

E o ser sobe, de forma em forma, ansioso por conhecer-Te, 
buscando uma realização cada vez mais completa de Teu pensamento, 
tradução em ato de Tua essência.
Adoro-Te, supremo princípio do Todo, 
em Teu revestimento de matéria, 
em Tua manifestação de energia; 
no inexaurível renovar-se de formas 
sempre novas e sempre belas; 

eu Te adoro, conceito sempre novo, 
bom e belo, 
inesgotável Lei animadora do universo. 
Adoro-Te grande Todo, 
ilimitado além de todos os limites de meu ser.
Nesta adoração, aniquilo-me e me alimento, 
humilho-me e me incendeio; 
fundo-me na Grande Unidade, 
coordeno-me na grande Lei, 
a fim de que minha ação seja sempre 
harmonia, ascensão, oração, amor."

A Grande Síntese - Cap 50

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Poemas - Savitri - Excerto - Sri Aurobindo


Se no Vazio sem significado a criação surgiu.
Se de uma força inconsciente a Matéria nasceu.
Se a vida pode se erguer na árvore inconsciente.
E o encanto verde penetrar nas folhas esmeraldinas.
E seu sorriso de beleza desabrochar na flor.
E a sensação pode despertar no tecido, no nervo e na célula.
E o Pensamento apossar-se da matéria cinzenta do cérebro.
E a alma espiar de seu esconderijo através da carne.
Como não poderá a luz ignota se lançar sobre o homem.
E poderes desconhecidos emergirem do sono da Natureza?
Mesmo agora insinuações de uma Verdade luminosa como estrelas,
Erguem-se no esplendor da mente lunar da ignorância;
Mesmo agora o toque imortal do Amante sentimos,
Se a porta da câmara apenas estiver entreaberta,
O que então pode impedir Deus de furtar-se para dentro,
Ou quem pode proibir seu beijo na Alma adormecida?

Sri Aurobindo

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Poemas - Forma - Sri Aurobindo


Forma

Oh adorador do infinito sem forma,
Não rejeites a forma, é Ele quem vive nela.
Cada finito é essa Infinitude
Sua velada alma de puro deleite entesourada.
A Forma, em seu coração de recôndito silêncio
Esconde o significado de Seu mistério,
A Forma é a morada assombrosa da eternidade,
Uma caverna do Imortal Eremita.

Há uma beleza nas profundezas de Deus,
Há um milagre do Maravilhoso
Que constrói o universo para sua habitação.
O Uno, em Sua glória inumerável,
Explodindo em forma e cor como uma rosa,
Compele as grandes pétalas do mundo a se abrirem.

Sri Aurobindo

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Da caridade - Espírita


A caridade é a lei suprema do Cristo: "Amai-vos uns aos outros como irmãos; - amai ao vosso próximo como a vós mesmos; - perdoai aos vossos inimigos; - não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem". Tudo isto se resume na palavra Caridade.
A caridade não consiste apenas na esmola. Há caridade por pensamentos, palavras e obras. 
É caridoso por pensamentos aquele que é indulgente para com as faltas dos eu próximo; 
caridoso por palavras o que nada diz que possa prejudicar ao seu próximo; 
caridoso por obras quem, na medida de suas forças, assiste seu próximo.
O pobre que reparte o seu pedaço de pão com um outro mais pobre do que ele é mais caridoso e tem mais méritos aos olhos de Deus do que aquele que dá do que lhe sobra, sem de nada se privar.
Quem quer que nutra contra seu próximo sentimentos de animosidade, de ódio, de ciúme e de rancor, falta à caridade; mente, se se diz cristão e ofende à Deus.
Homens de todas as castas, de todas as cores, sois todos irmãos, porquanto Deus a todos vos chama a si. Estendei-vos, pois, as mãos, seja qual for a maneira por que o adoreis, e não vos lanceis anátema uns aos outros, visto que o anátema é a violação da lei de caridade proclamada pelo Cristo.
Com o egoísmo, os homens vivem em luta perpétua; com a caridade viverão em paz. 
Só a caridade, servindo de base às suas instituições, lhes assegurará a felicidade neste mundo. 
Segundo as palavras do Cristo, só ela também lhes pode assegurar a felicidade, porque encerra implicitamente todas as virtudes que os podem conduzir à perfeição. 
Com a verdadeira caridade, tal como a ensinou e praticou Jesus, nem ciúme, nem maledicência, nem apego exagerado aos bens deste mundo. 
Eis por que o Espiritismo cristão tem por máxima: "Fora da caridade não há salvação".

Allan Kardek - Máximas extraídas dos ensinos dos espíritos - 55-60

domingo, 8 de julho de 2012

Onde está o Tao? - Chuang Tse



Onde está o Tao?

Mestre Tung Kwo perguntou a Chuang: "Mostre-me onde pode o Tao ser encontrado"
Respondeu Chuang Tzu:
"Não há lugar onde ele não possa ser encontrado."
O primeiro insistiu:
"Mostre-me, pelo menos, algum lugar preciso onde o Tao pode ser encontrado".
"Está na formiga", disse Chuang.
"Ele está em algum dos seres inferiores?"
"Está na vegetação do pântano".
"Pode você prosseguir na escala das coisas?"
"Está no pedaço de taco".
"E onde mais?"
"Está neste excremento".
Com isto, Tung Kwo nada mais podia dizer.
Mas Chuang continuou:

"Nenhuma de suas perguntas é pertinente.São como perguntas de fiscais no mercado, controlando o peso dos porcos, espetando-os nas suas partes mais tenras. Por que procurar o Tao examinando "Toda escala do Ser", como se o que chamássemos "mínimo" possuísse quantidade inferior do Tao? O Tao é Grande em tudo, Completo em tudo, Universal em tudo, Integral em tudo. Estes três aspectos são distintos, mas a Realidade é o Uno. Portanto, vem comigo ao palácio do Nenhures onde todas as muitas coisas são uma só: lá, finalmente, poderíamos falar do que não tem limites nem fim. Vem comigo à terra do Não-agir: O que diremos lá - que o Tao é a simplicidade, a paz, a indiferença, a pureza, a harmonia e a tranquilidade? Todos estes nomes deixam-me indiferente pois suas distinções desapareceram. Lá minha vontade não tem alvo. Se não está em parte nenhuma, como me aperceberei dela? Se ela vai e volta, não sei onde repousa. Se vagueia aqui e ali, não sei onde terminará. A mente permanece instável no grande Vácuo. Aqui, o saber mais elevado é ilimitado. O que concede às coisas sua razão de ser, não pode limitar-se pelas coisas. Assim, quando falamos em limites, ficamos presos às coisas delimitadas. O limite do ilimitado chama-se "plenitude". O ilimitado do limitado chama-se "vazio". O Tao é a fonte de ambos. Mas não é, em si, nem a plenitude nem o vazio. O Tao produz tanto a renovação quanto o desgaste, mas não é nem a renovação nem o desgaste. Produz o ser e o não-ser, mas não é nem um, nem outro. O Tao congrega e destrói, mas não é nem a totalidade nem o vácuo.

(Chuang Tse - xxii, 6)

Nosso supremo lar - Sufi


A terra de nosso supremo lar
É uma terra de flores sem espinhos:
Não se permitem ali as atras florestas do medo
Nem se semeia jamais a Dor.

O riacho do amor corre ali sem cessar,
A criação é um deslumbramento
E visões celestiais consolam a terra
Enquanto torrentes imemoriais alegram os olhos.

Ali toda oração é auto-suficiente,
Ninguém regateia dádivas,
A vida é feita de verdade,
E desconhece a máscara da ilusão.

Proscrito está o egoísmo,
E vedados os pensamentos personalizados,
Senhor algum governa, servo algum obedece,
Sombra alguma empana a Divina Luz.

Não é um arroubo poético
Esse mundo de amor e êxtase
Que, no fundo de cada coração,
Espera apenas ser descoberto.

Poema sufi - Dilip Kumar Roy - Peregrinos das estrelas