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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Confúcio e o Mortal - Chuang Tse



Confúcio contemplava a catarata Lu-Liang. 
A cortina de água tem a altura de dez homens em pé, um em cima do outro.
Depois da queda, a corrente impetuosa de águas espumantes se precipita ao longo de quarenta milhas, entre as rochas. 
Nem tartarugas, peixes ou crocodilos podiam nadar nesse turbilhão.
Viu, porém um homem nadando na torrente.
Crendo tratar-se de um suicida cansado dos sofrimentos da vida, mandou que seus discípulos o salvassem da morte.
A uns cem passos abaixo, porém, o homem saiu da água, sacudiu alegre os cabelos molhados e cantarolava.
Disse Confúcio:
Pensei que você fosse um espírito. 
Vejo, porém, que é mortal.
Diga-me, por favor, em que consistem a técnica e o método de sua natação?
Respondeu-lhe o mortal:

"Não sei. Instalei-me na terra,
enraizei-me no hábito do cotidiano; 
no desempenho recolhido do habitat diário,
 alojei-me na fluência da vida; 
aos poucos a fluência da vida se tornou o habitáculo da minha natureza
como a lei perfeita da regência do corpo. 
Caio na água, desço e subo com ela, na correspondência à sua doação. 
Não há técnica nem método."

Perguntou-lhe Confúcio:
O que significa instalar-se no hábito do cotidiano,
 alojar-se na fluência da vida,
tomar corpo na regência da lei perfeita?

Respondeu-lhe o homem:

"Sou camponês.
Nasci na terra.
Moro nela.
Isso se chama paz e recolhimento diário.
Da paz flui a vida.
Deixar fluir a vida no recolhimento diário é o hábito.
Isso se chama: ser.
Com o tempo, o ser toma corpo,
cresce como fruto da vida, prenhe de vigor.
Isso se chama: liberdade ou espírito.
É só isso, nada mais."

Chuang Tse

domingo, 8 de julho de 2012

Onde está o Tao? - Chuang Tse



Onde está o Tao?

Mestre Tung Kwo perguntou a Chuang: "Mostre-me onde pode o Tao ser encontrado"
Respondeu Chuang Tzu:
"Não há lugar onde ele não possa ser encontrado."
O primeiro insistiu:
"Mostre-me, pelo menos, algum lugar preciso onde o Tao pode ser encontrado".
"Está na formiga", disse Chuang.
"Ele está em algum dos seres inferiores?"
"Está na vegetação do pântano".
"Pode você prosseguir na escala das coisas?"
"Está no pedaço de taco".
"E onde mais?"
"Está neste excremento".
Com isto, Tung Kwo nada mais podia dizer.
Mas Chuang continuou:

"Nenhuma de suas perguntas é pertinente.São como perguntas de fiscais no mercado, controlando o peso dos porcos, espetando-os nas suas partes mais tenras. Por que procurar o Tao examinando "Toda escala do Ser", como se o que chamássemos "mínimo" possuísse quantidade inferior do Tao? O Tao é Grande em tudo, Completo em tudo, Universal em tudo, Integral em tudo. Estes três aspectos são distintos, mas a Realidade é o Uno. Portanto, vem comigo ao palácio do Nenhures onde todas as muitas coisas são uma só: lá, finalmente, poderíamos falar do que não tem limites nem fim. Vem comigo à terra do Não-agir: O que diremos lá - que o Tao é a simplicidade, a paz, a indiferença, a pureza, a harmonia e a tranquilidade? Todos estes nomes deixam-me indiferente pois suas distinções desapareceram. Lá minha vontade não tem alvo. Se não está em parte nenhuma, como me aperceberei dela? Se ela vai e volta, não sei onde repousa. Se vagueia aqui e ali, não sei onde terminará. A mente permanece instável no grande Vácuo. Aqui, o saber mais elevado é ilimitado. O que concede às coisas sua razão de ser, não pode limitar-se pelas coisas. Assim, quando falamos em limites, ficamos presos às coisas delimitadas. O limite do ilimitado chama-se "plenitude". O ilimitado do limitado chama-se "vazio". O Tao é a fonte de ambos. Mas não é, em si, nem a plenitude nem o vazio. O Tao produz tanto a renovação quanto o desgaste, mas não é nem a renovação nem o desgaste. Produz o ser e o não-ser, mas não é nem um, nem outro. O Tao congrega e destrói, mas não é nem a totalidade nem o vácuo.

(Chuang Tse - xxii, 6)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Lótus na Lama, o Crisântemo na Geada - Liu I-Ming


O caule do lótus é oco, razão pela qual, ao emergir da lama é extraordinariamente limpo. A flor do crisântemo é tardia, razão pela qual, ao encontrar a geada do outono, é extraordinariamente fresca. Quando o interior é oco, as coisas exteriores não podem deixar sua marca; quando a flor é tardia, a energia é plena e resistente ao frio.
O que percebo quando observo isso é o Tao do cultivo do interior e da imunidade às coisas exteriores. A razão pela qual a Criação pode nos constranger, a razão pela qual as coisas podem nos influenciar, o motivo de a calamidade poder nos ferir, não é que a Criação possa de fato nos constranger, nem que as coisas possam de fato nos influenciar, nem que a calamidade possa efetivamente nos ferir - tudo se deve à resposta emocional que temos diante das nossa mente, como o vento que levanta ondas em qualquer direção na qual sopre. Se sabemos avançar mas não sabemos ficar para trás, se sabemos ser impetuosos mas não sabemos ser receptivos, nós nos constrangemos, nos influenciamos e nos ferimos.
Se formos verdadeiramente capazes de ser de tal maneira que nada nos ocorra nem surja em nós nenhum pensamento, sempre claros e calmos, impávidos diante das coisas exteriores, imunes às influências  externas, seremos como um lótus que emergiu da água, sem a mácula da sujeira. Se formos verdadeiramente capazes de ocultar o próprio talento e percepção, sendo habilidosos mas nos mostrando limitados, sendo sábios mas com aparência de ignorantes, agindo de modo discreto, prontos a nos mostrarmos flexíveis, a calamidade e a fortuna não poderão nos afetar. Seremos como o crisântemo no outono, infenso à geada e ao frio. (Em: O Despertar para o Tao - Liu I-Ming)

domingo, 25 de julho de 2010

Sobre o Tao - Alan Watts


O Tao e seu padrão nos escapam:

Como uma espada que corta mas não consegue cortar a si mesma;
Como um olho que vê mas não consegue ver-se a si mesmo

Observando o núcleo, 
mudamos seu comportamento,
e observando as galáxias, 
elas fogem de nós -
e, na tentativa de compreender o cérebro,
defrontamo-nos com um obstáculo, qual seja
o de não possuirmos instrumento melhor 
do que o próprio cérebro para tal fim.

O maior obstáculo para o conhecimento objetivo
está em nossa própria presença subjetiva.

Assim,
só nos resta confiar
e seguir com o Tao,
como fonte 
e base 
de nosso próprio ser,
o qual
  
 Pode ser alcançado 
mas não visto.

Alan Watts
em: Tao, o curso do Rio.
(Ed. Pensamento)