sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Como podemos chamá-lo (ao Uno) de "outro"? - Plotino

Por que não podemos permanecer lá no alto?
 É por não termos saído inteiramente deste mundo. 
Virá um tempo em que a contemplação será ininterrupta, 
posto que não haverá mais nenhum obstáculo do corpo. 

Aliás, não é a parte que contemplou que é velada pelo corpo, 
mas a racional: aquela que, 
quando a que contemplou está inativa no que diz respeito à contemplação, 
está ativa quanto ao conhecimento racional 
que consiste em demonstrações, provas e diálogos da Alma consigo mesma. 

Mas o ato de contemplar e o contemplador não são raciocinantes: 
são superiores, anteriores, transcendentes ao raciocínio (logismoi), 
como o próprio Objeto de sua contemplação.

Por isso, quando o contemplador contemplar a si mesmo (o Uno), 
verá a si mesmo como descrevemos, abrasado. 
Ou, antes, estará unido a si mesmo nesse estado, 
e terá consciência de estar nesse estado glorificado, 
uma vez que se tornou simples. 

Talvez não se deva dizer "verá a si mesmo", mas "será visto", 
se é possível dizer que o vidente e o objeto de sua visão são dois e não um.
 Portanto, nesse momento, o vidente não vê, 
nem distingue, 
nem imagina que são dois: 

mas tendo se tornado de certo modo outro, 
e não mais sendo ele mesmo, 
nem dele mesmo, 
pertence inteiro ao que está lá no alto, 
e, 
possuído por ele, 
é uno com ele, 
como se seu centro coincidisse com o Centro. 

Pois, mesmo aqui embaixo, dois centros que coincidem são um, 
mas tornam-se dois quando se separam. 

Por isso é difícil descrever essa visão. 
Pois, como podemos chamá-lo (ao Uno) de "outro", 
se no momento em que foi visto não foi visto como outro, 
mas uno com aquele que o viu?

Plotino - Enéada VI 9. 10


sexta-feira, 16 de outubro de 2015



A Alegria de viver - Thomas Traherne

A alegria de viver jamais é completa

até que todas as manhãs despertes no Céu
vendo a ti mesmo no palácio do Pai
mirando os céus, e terra e o ar como dádivas celestiais
e tudo contemplando com reverente estima,
como se estivesses entre os anjos.
A noiva do monarca na câmara nupcial
não tem tantos motivos de prazer como tu.

Jamais fruirás plenamente a delícia da vida
até que o próprio mar flua em tuas veias
até que estejas vestido com os céus e coroado de estrelas
e percebas a ti mesmo como sendo o único herdeiro de todo o Universo
e mais que isso, 
pois todos os homens que nele estão são seus herdeiros,
tanto como tu.
Até que possas cantar, regozijar-te e deleitar-se em Deus,
assim como os avarentos com o ouro 
e os reis com seus cetros,
jamais poderás sentir a alegria de viver.

Até que teu espírito encha todo o Universo
e que as estrelas sejam tuas jóias
até que te sejam tão familiares os caminhos de Deus em todas as idades,
assim como a mesa onde te sentas
até que estejas intimamente ligado àquele "nada" nebuloso
do qual todo universo é feito
até que ames os homens desejando sua felicidade
com uma sede igual ao zelo que sentes por ti mesmo,
até que te regozijes em Deus
 por ser bom para todos,
jamais amarás a vida.

Até que tu a sintas mais que tuas posses,
e a percebas mais presente no hemisfério,
considerando as belezas que lá estão,
do que na tua própria casa,
até que te lembres quão tarde foste 
e quão maravilhoso foi quando chegou a Ele,
e sintas mais júbilo no palácio da tua glória,
como se ele estivesse sido feito hoje pela manhã.

Além disso, jamais amarás plenamente a vida 
até que ame a beleza de gozá-la,
até que estejas ardente e sequioso de persuadir os outros
a amá-la também.
E desta forma odiar totalmente a abominável corrupção
humana que despreza essa possibilidade,
pois preferirás sofrer as chamas do inferno a, 
voluntariamente seres culpado dos seus erros

O universo é um espelho da Beleza Infinita
porém o homem não o vê.
É um templo da majestade,
mas o homem não o olha.
É uma região de luz e Paz,
se o homem não a perturba.
É o paraíso de Deus.

É muito mais para o homem depois de sua queda do que antes.
É o lugar dos anjos e o portal do céu.
Quando Jacó despertou de seu sonho, ele disse:
"Deus está aqui, e eu não o sabia."
Como é sublime esse lugar!
Nada mais é que
a casa de Deus e o Portal do Céu.

Em: A Filosofia Perene - Aldous Huxley

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Pensamentos soltos - Jinarajadasa


Compreender plenamente a evolução da Consciência 
é penetrar o mistério da natureza de Deus.
 Porém, como toda vida é Ele e somos também fragmentos d´Ele, 
à medida que crescemos em consciência, 
nós O descobrimos,
 e, ao mesmo tempo,
 nos transmutamos em Sua imagem.
 E ao descobri-Lo, 
nós descobrimos a nós mesmos. 

O mistério da Consciência é este: a parte é o Todo.
 Mas saber isto é uma coisa, e sê-lo é outra. 

Só é possível ser o Todo,
 quando atuamos com o Todo, 
e isto realizamos, dando-nos 
tão plena e francamente 
dentro de nosso pequeno círculo de ser,
 como o Todo a Si mesmo se dá a todos,
 no vasto círculo de Seu Ser. 

Parece incrível que sejamos capazes de imitar o Todo.
 Contudo, por ser este o nosso destino, 
Ele nos enviou de Si para vivermos nossas vidas separadas. 
A única vida digna de ser vivida consiste em participar de seu eterno sacrifício;
 é o testemunho que dão todos aqueles que d´Ele vieram 
e para Ele voltaram conscientemente. 

(Jinarajadasa)

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A semana do magista - Papus



A imantação das forças psíquicas 
deve ser feita no silêncio. 
É pela perseverança,
pela calma e, 
sobretudo, 
pela investigação exclusiva 
da verdade por si mesma 
e não por fim material 
e vil, 
que se chega pouco a pouco, 
à intuição do astral 
e à posse da prática.
  
O dia do magista 
deve ser consagrado 
à prece 
sob estas três formas:
a palavra, o trabalho e a meditação.
Ao levantar-se dirá, 
depois de ter purificado fisicamente 
o mais possível pela água, 
a oração do dia diante do altar. 
Em seguida se entregará ao trabalho 
que é a mais útil e eficaz das preces.
A noite,  finalmente, consagrar-se-á 
alguns instantes 
à meditação 
relativamente às observações 
e aos ensinamentos 
que se pode recolher durante o dia 
que acaba de transcorrer.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Os dois tipos de paciência - Sutra Upasakashila

Existem dois tipos de paciência: a que pertence a este mundo e a que o transcende.
Com a paciência deste mundo, aprendemos a tolerar a fome, a sede, o calor, o frio, o sofrimento e a alegria.
Com a paciência transcendental, aprendemos a ter fé inabalável, sabedoria, generosidade, compaixão e mente aberta.
Aprendemos a ser firmes em nossa lealdade ao Buda, ao Dharma e à Sangha;
a tolerar insultos, agressões físicas, escárnio, conspirações maléficas contra nós, cobiça, ira, ignorância e todos os outros elementos vis e humilhantes deste mundo.
Aprendemos a tolerar o intolerável e a realizar o impossível.
Assim é a paciência que transcende este mundo.

Sutra Upasakashila

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pai-Mãe nosso que estais em todos os lugares


Pai-Mãe nosso que estais em todos os lugares

Santificada e Glorificada seja vossa Obra Maravilhosa

Venha a nós a percepção de vossa 
Beleza, Alegria e Bondade Eternas
Que ela nos eleve acima de nossas forças

Seja feita a vossa vontade
em cada coração que brilha com tua Luz
Assim no plano físico como no espiritual

O pão espiritual da evolução e superação
dá-nos, conforme nosso mérito e necessidade.

Perdoai nossas faltas na medida em que 
desatamos os nós das faltas de nossos irmãos em relação a nós

Não deixeis abater e desaquecer
a nossa força que brota de ti

Que nossos corações resplandeçam
com Teu Amor Infinito.

Livra-nos do egoísmo.

Amém, Aum, Paz

terça-feira, 28 de maio de 2013

Pensamentos soltos - Shankaracharaya



Assim como as nuvens tornadas visíveis pelos raios de sol manifestam-se escondendo o sol que as criou o egoísmo manifesta-se a si mesmo ocultando o caráter real do Eu.

As nuvens são reunidas pelo vento, e por ele dispersadas. A servidão é criada pela mente bem como a emancipação.

Shankaracharya.

Morra e viva Naquilo - Sam Tchan Khan Pa



Morra e viva Naquilo!
Confia!

Possa a tua alma brilhar com a infinita Luz e suprema Paz
Oh, imortalidade suprema, em Ti sempre morei!
Não mais distinto de Ti serei.
Tua alegria enche aquilo que de minha alma permanece.

Incendeia aquilo que resta de meu coração.
E em mim incorpora a felicidade de um relâmpago eterno.

Oh, Vida imensa e infinita!
Esplendor eterno e radiante!
Tu és meu único corpo.
o meu único lar...
Eu sou a divindade das coisas!

Sob este espesso manto de matéria
sou a chama silenciosa e anônima,
que de todos é desconhecida,
e que brilha no coração das trevas externas!

No perpétuo ressurgir de minha infinita visão
Não mais existem véus, nem trevas, nem luz.
Oh inominável infinito!
O Eterno que não tem qualquer atributo
é minha única morada,
o meu único estado Natural

É nesta unidade que vejo uma infinidade de seres e coisas
dissolvidos numa essência comum, 
igual à pura água
que da pura água surge,

Na plenitude transluminosa de uma infinita realidade
para sempre estou transfigurado
assim como todas as coisas transfiguro
em virtude do eterno relâmpago que sou.

Eu sou... Para sempre sou...
A bênção infinita que nos seus eternos ritmos
o Universo acalenta 
e os corações das coisas acelera.

Eu sou... Para sempre sou...
No meu refúgio último,
que é também o refúgio de todas as coisas...

Alegria!
Harmonia!
O êxtase do mundo!

Sam Tchan Khan Pa
Lama Tibetano

sábado, 30 de março de 2013

Pensamentos soltos - Henry Bergson

" A humanidade geme, meio esmagada sob o peso do progresso que conseguiu. Ela não sabe o suficiente que seu futuro depende dela. Cabe-lhe primeiro ver se quer continuar a viver. Cabe-lhe indagar depois se quer viver apenas, ou fazer um esforço a mais para que se realize, em nosso planeta refratário, a função essencial do universo, que é uma máquina de fazer deuses."
Henri Bergson

quarta-feira, 6 de março de 2013

Samyutta, Nikaya, v



O estado da mente bem-equilibrada mostrará o caminho
A todo aquele que atingiu a Fé e a Sabedoria;
Os varais são a Consciência;
a Mente, o jugo;
E a Cautela, a auriga atenta;
Os arreios da Probidade, o Carro ;
O Entusiasmo, o eixo;
a Energia, as rodas;
E a Calma, o companheiro de trabalho;
A falta de cobiça, as cortinas.
A Benevolência e a Inofensibilidade são as suas armas,
Junto com o Desapego da Mente.
A Persistência é a armadura do exemplo,
E é para atingir a Paz que o Carro vai adiante.
E, construído pelo eu, pelo próprio ser de alguém,
Ele se torna a incomparável, a suprema carruagem;
Acomodados nela, os Sábios deixam de ser parte do mundo
E alcançam a Vitória.

Sakyamuni
Samyutta, Nikaya, v